MULHERES DESAMPARADAS
Célio Furtado
Nos anos setenta e oitenta vi coisas que trouxeram marcas profundas na minha vida. Muitos fugiram da seca que desabou sobre o Nordeste, em 1970.
Os que resistiram puderam desfrutar da invernada ocorrida em 74, além do clima de prosperidade ofertado pelo ciclo do sisal e pelo aquecimento da economia nacional, efeito do milagre econômico. Nesse tempo a região do rude Curimataú paraibano se iluminou de prosperidade.
Quem conseguiu retornar reencontrou uma cidade – Cuité - com ares de espetacular crescimento. Tudo parecia encantador.
Como uma pintura tomada de cores, contrastes e movimento, minha terra tinha vida própria, assim como a maioria das estrelas. Encantava pela simplicidade da sua rotina e pelos costumes apurados ao longo da historia.
Seria, talvez, um mundo completo e feliz, não fosse a tristeza das suas mulheres desamparadas, privadas da companhia dos maridos.
Anos de espera, elas sofriam silenciosas, numa versão local das mulheres de Atenas. O olhar expressava desejo, expectativa, saudade.
Se seus homens prometiam voltar, elas esperavam; se não prometiam, esperavam assim mesmo. Tinham partido para ajudarem construir outros mundos, cidades distantes, como Rio e São Paulo.
Das bocas dessas mulheres ouvi lamentos, dos olhos tristes vi escorrerem muitas lagrimas; do semblante, a idéia de desgosto sem fim. Quando recebiam cartas, devoravam-nas com a fome da saudade acumulada, com a sede do desejo suportado nas frias noites de solidão.
Passavam o dia debruçadas na janela, sentadas na varanda, sempre à espera de notícias. Das jardineiras coloridas colhiam esperanças, nas fotografias amareladas pelo tempo profetizavam o seu destino.
As Cores do Tempo, título da minha exposição ocorrida até semana passada no Fórum Cível da Capital, é um retrato dessa época, um tempo perdido na imobilidade do silêncio.
A maioria dos 12 quadros apresentados, de três metros quadrados, expõe essas mulheres, suas dores, seus segredos, expectativas. Expõe o mundo que as envolvia e a atmosfera vivida por esse colunista, que dos 12 anos de idade registrou pedaços de passado, só agora transferidos para a tela.
As pinturas são compostas por tons envelhecidos e reunião de temáticas como paisagem, casario, natureza-morta e retrato.
Resultado de dois anos de ´´ elaboração ´´, o trabalho só agora vem a público. Embora, trate-se de uma mudança completa, a essência do trabalho permanece e, assim, este colunista se mantém fiel a gosto e aquilo que pretende encontrar e extrair da arte de pintar.
Quem não visitou a exposição do Fórum Cível terá boas chances de conhecer novos trabalhos com a mesma proposta, que serão mostrados, ainda este ano, em espaços como TRT, Mag Shopping e Shopping Tambiá.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
OS QUATRO SONHOS
Célio Furtado
Como as lágrimas, a felicidade parte de dentro para fora, e não o contrário. Logo, há razão em dizer que, antes de desejarmos determinada coisa devemos observar primeiro qual a felicidade de quem a possui. Descobri que alguns possuem e são infelizes, enquanto outros não, e vivem, de algum modo, melhor. Por quê? A resposta pode estar na expectativa. Afinal, diz-se que o bom da festa é esperar por ela. Essas divagações me inspiraram a escrever a história do rapaz infeliz...
Insatisfeito e louco para encontrar a felicidade se despediu de todos, e partiu.
Andou alguns dias, parando somente para descansar. Uma semana depois chegou a um vilarejo e na primeira casa pediu água para beber.
Vendo seu estado uma senhora, conhecida pela sua simpatia e generosidade, trouxe-lhe, não apenas água, mas comida, roupas limpas e uma rede para descansar.
Agradecido, o rapaz armou a rede na varanda da casa e cochilou. Estava tão cansado que despertou apenas na manhã seguinte.
Percebeu que tivera quatro sonhos. Ao ver a mulher, contou-lhe um a um.
Disse que no primeiro estava fantasiado de mágico e podia fazer coisas impossíveis, como sorrir diante das adversidades, dar algo sem esperar nada em troca, chorar e ver nas lágrimas estímulo para prosseguir e se encantar com as coisas do seu próprio mundo.
No segundo sonho se vestia como um caçador de animais ferozes. Por isso, viu-se tão cheio de coragem; e quando a fera se fez presente lutou com grande vigor e determinação, apesar de sentir medo em alguns momentos, e só depois de vencê-la é que percebeu a diferença entre o medo e a covardia.
O terceiro sonho o transformou num sábio que vivia numa praia deserta. Era um homem de dúvidas, de muitas perguntas e poucas respostas, por entender que a sabedoria era o efeito da demorada análise e da conveniência, e que decisão se toma longe das opiniões apaixonadas, daí a razão de tanto alheamento.
No último sonho não era mais um mágico, caçador nem sábio, era apenas ele mesmo. Isso o fez triste e decepcionado.
Nesse instante a mulher aproximou-se e falou: “Alegre-se, pois só os mais corajosos são capazes de sair e caçar diante da incerteza; somente os sábios têm o poder de ver na dúvida o caminho para a verdade e apenas os mágicos conseguem transformar uma realidade medíocre em sonhos grandiosos.
Voltou para casa com uma certeza: “ Se não encontramos a felicidade em nossa alma, é inútil procurá-la noutro lugar.”
Como as lágrimas, a felicidade parte de dentro para fora, e não o contrário. Logo, há razão em dizer que, antes de desejarmos determinada coisa devemos observar primeiro qual a felicidade de quem a possui. Descobri que alguns possuem e são infelizes, enquanto outros não, e vivem, de algum modo, melhor. Por quê? A resposta pode estar na expectativa. Afinal, diz-se que o bom da festa é esperar por ela. Essas divagações me inspiraram a escrever a história do rapaz infeliz...
Insatisfeito e louco para encontrar a felicidade se despediu de todos, e partiu.
Andou alguns dias, parando somente para descansar. Uma semana depois chegou a um vilarejo e na primeira casa pediu água para beber.
Vendo seu estado uma senhora, conhecida pela sua simpatia e generosidade, trouxe-lhe, não apenas água, mas comida, roupas limpas e uma rede para descansar.
Agradecido, o rapaz armou a rede na varanda da casa e cochilou. Estava tão cansado que despertou apenas na manhã seguinte.
Percebeu que tivera quatro sonhos. Ao ver a mulher, contou-lhe um a um.
Disse que no primeiro estava fantasiado de mágico e podia fazer coisas impossíveis, como sorrir diante das adversidades, dar algo sem esperar nada em troca, chorar e ver nas lágrimas estímulo para prosseguir e se encantar com as coisas do seu próprio mundo.
No segundo sonho se vestia como um caçador de animais ferozes. Por isso, viu-se tão cheio de coragem; e quando a fera se fez presente lutou com grande vigor e determinação, apesar de sentir medo em alguns momentos, e só depois de vencê-la é que percebeu a diferença entre o medo e a covardia.
O terceiro sonho o transformou num sábio que vivia numa praia deserta. Era um homem de dúvidas, de muitas perguntas e poucas respostas, por entender que a sabedoria era o efeito da demorada análise e da conveniência, e que decisão se toma longe das opiniões apaixonadas, daí a razão de tanto alheamento.
No último sonho não era mais um mágico, caçador nem sábio, era apenas ele mesmo. Isso o fez triste e decepcionado.
Nesse instante a mulher aproximou-se e falou: “Alegre-se, pois só os mais corajosos são capazes de sair e caçar diante da incerteza; somente os sábios têm o poder de ver na dúvida o caminho para a verdade e apenas os mágicos conseguem transformar uma realidade medíocre em sonhos grandiosos.
Voltou para casa com uma certeza: “ Se não encontramos a felicidade em nossa alma, é inútil procurá-la noutro lugar.”
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
A SORTE ESTÁ NO CORAÇÃO
Célio Furtado
Uma mulher rezava ajoelhada diante do alto quando viu o padre. Voltando-se para ele, disse:
“Ontem cometi um erro, padre; anteontem, outro. Somados aos do início da semana e a outros infortúnios ocorridos nesse período, também por minha culpa... Penso que estou sendo castigada.
“Quem lhe castiga é a culpa, não os erros. Ela quando vista com bom juízo eleva o conhecimento, pois deixa o orgulho vulnerável e desarma o erro, mas se entendida como um flagelo alimenta o medo e fortalece o desacerto.”
A mulher disse, enxugando as lágrimas:
“Preocupo-me muito com meu filho, eu só tenho um, padre. Ele é tudo para mim.”
“Dê graças por ele existir. Por isso, em vez de se preocupar, ocupe-se com ele. Abrace-o em vez de apertá-lo, pode-o em vez de ceifá-lo. Todos nós temos inimigos invisíveis que precisam ser percebidos e bem interpretados, não necessariamente combatidos. Nada mais aflige a alma que o desejo insaciável de atacar. Aquele que toma a arma e a aponta para o suposto inimigo além de eleger o inimigo, incita-o. Celebre o bem, esqueça o mal.”
Ela rebateu: “Mas como, se tudo que faço parece dar errado e me causa sofrimento e dor?”
O padre contestou: ”Não se deve torturar pelo fato de ter incorrido no erro. Eles foram tecidos pelas mesmas mãos que trabalharam o sofrimento. Será que não percebe quanto de sabedoria existe na dor?”
“Tome como exemplo a beleza da flor. Veja o ipê, quando ainda broto se sabe que um dia poderá florir e se tornar belo e majestoso, mas precisará de sorte e paciência para atingir a fase adulta. E mesmo nessa fase, esperará a primavera.”
“Se o colorido da natureza fosse constante ninguém esperaria pela primavera para ver o ipê florido, talvez nem sequer o admirasse, porque o que é constante é cansativo e ordinário.”
O padre continuou: “Qual o espírito de graça da amizade sem a ausência do amigo? Quando este ressurge o abraço se torna mais caloroso e há muito mais fatos para lhe contar. A ausência permite medir o tamanho da sua falta e proporciona tempo vago para podermos cuidar de nós mesmos, de nos vermos como amigo de nós mesmos.”
“Volte para casa e viva a vida, não os medos. Ame o seu filho, ensine-o a enxergar o passado, assim não repetirá os erros no presente. E lembre-se: - A sorte está dentro do coração, a felicidade também. E quando voltar à igreja, ajoelhe-se para agradecer. Deus gosta de pessoas assim.”
Uma mulher rezava ajoelhada diante do alto quando viu o padre. Voltando-se para ele, disse:
“Ontem cometi um erro, padre; anteontem, outro. Somados aos do início da semana e a outros infortúnios ocorridos nesse período, também por minha culpa... Penso que estou sendo castigada.
“Quem lhe castiga é a culpa, não os erros. Ela quando vista com bom juízo eleva o conhecimento, pois deixa o orgulho vulnerável e desarma o erro, mas se entendida como um flagelo alimenta o medo e fortalece o desacerto.”
A mulher disse, enxugando as lágrimas:
“Preocupo-me muito com meu filho, eu só tenho um, padre. Ele é tudo para mim.”
“Dê graças por ele existir. Por isso, em vez de se preocupar, ocupe-se com ele. Abrace-o em vez de apertá-lo, pode-o em vez de ceifá-lo. Todos nós temos inimigos invisíveis que precisam ser percebidos e bem interpretados, não necessariamente combatidos. Nada mais aflige a alma que o desejo insaciável de atacar. Aquele que toma a arma e a aponta para o suposto inimigo além de eleger o inimigo, incita-o. Celebre o bem, esqueça o mal.”
Ela rebateu: “Mas como, se tudo que faço parece dar errado e me causa sofrimento e dor?”
O padre contestou: ”Não se deve torturar pelo fato de ter incorrido no erro. Eles foram tecidos pelas mesmas mãos que trabalharam o sofrimento. Será que não percebe quanto de sabedoria existe na dor?”
“Tome como exemplo a beleza da flor. Veja o ipê, quando ainda broto se sabe que um dia poderá florir e se tornar belo e majestoso, mas precisará de sorte e paciência para atingir a fase adulta. E mesmo nessa fase, esperará a primavera.”
“Se o colorido da natureza fosse constante ninguém esperaria pela primavera para ver o ipê florido, talvez nem sequer o admirasse, porque o que é constante é cansativo e ordinário.”
O padre continuou: “Qual o espírito de graça da amizade sem a ausência do amigo? Quando este ressurge o abraço se torna mais caloroso e há muito mais fatos para lhe contar. A ausência permite medir o tamanho da sua falta e proporciona tempo vago para podermos cuidar de nós mesmos, de nos vermos como amigo de nós mesmos.”
“Volte para casa e viva a vida, não os medos. Ame o seu filho, ensine-o a enxergar o passado, assim não repetirá os erros no presente. E lembre-se: - A sorte está dentro do coração, a felicidade também. E quando voltar à igreja, ajoelhe-se para agradecer. Deus gosta de pessoas assim.”
A SAUDADE
Célio Furtado
No período das férias um dos alunos do mestre Horácio decidiu lhe fazer uma visita. Então, cavalgou duas léguas por estrada precária e caminhos vicinais. Ao avistá-lo, o mestre disse:
- Jamais me alegrei tanto em vê-lo como hoje.
- Estive ao seu lado por todo o ano passado, e não despertei sua alegria tanto como hoje. Por quê?
- Das outras vezes procurava por meus conhecimentos, agora veio porque sentiu saudades.
- Diz que ninguém enfrenta essas terras durante o recesso só para lhe ver.
- Um professor sempre perde a importância nessa época.
- Aconselho-o a crer que seus alunos não o procuram nesse tempo porque corre o mundo para praticarem o que lhes ensinou.
- E por que não fez o mesmo?
- Porque Deus criou o homem e o envolveu de sentimentos, entre os quais a saudade.
Horácio abraçou-o. Disse: “Tenho ensinado o racional, deslembrado as emoções. Contudo, vejo que estas são espontâneas. Entremos para apreciarmos um bom vinho”.
O sol se preparava para se pôr quando o aluno participou sobre sua intenção de retornar à cidade. O empregado já preparava os cavalos quando seus argumentos foram prontamente recusados pelo anfitrião que expôs os perigos do tráfego pela região depois do anoitecer.
- Como nos ensinou sobre Einstein, algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário!
- Eu sei, eu sei. Vi que você está ficando melhor do que eu. Ah! Os anos passam e pareço mais velho que essas serras. Fique e faremos uma fogueira, até porque a lua está cheia e deve aparecer mais tarde. Ao amanhecer os peixes são melhores de pescar.
O aluno pesou tudo e o resultado era mesmo a solidão. Viver ali, sozinho, era um grande sacrifício. Pensou: “Ninguém se torna mestre sem sacrifícios”.
Pelo amanhecer o aluno dispensou a pescaria. “Preciso ir. Tenho muito que cavalgar”.
Ao entender-lhe a mão, o mestre perguntou:
- Veio mesmo só pela saudade?
- Não. Também sentia saudade da casa, do lago, dessa mata. Mas essas coisas não animam nem trazem um sopro de esperança, despertam nem soerguem o espírito tanto quanto o senhor; nem põem o corpo em alerta, os braços em guarda, os pulsos firmes e prontos para o combate quanto seus ensinamentos. Saudades apenas sentirei se um dia o mestre morrer primeiro.
- Ora, dane-se. Como disse, você está mesmo ficando melhor do que eu!
No período das férias um dos alunos do mestre Horácio decidiu lhe fazer uma visita. Então, cavalgou duas léguas por estrada precária e caminhos vicinais. Ao avistá-lo, o mestre disse:
- Jamais me alegrei tanto em vê-lo como hoje.
- Estive ao seu lado por todo o ano passado, e não despertei sua alegria tanto como hoje. Por quê?
- Das outras vezes procurava por meus conhecimentos, agora veio porque sentiu saudades.
- Diz que ninguém enfrenta essas terras durante o recesso só para lhe ver.
- Um professor sempre perde a importância nessa época.
- Aconselho-o a crer que seus alunos não o procuram nesse tempo porque corre o mundo para praticarem o que lhes ensinou.
- E por que não fez o mesmo?
- Porque Deus criou o homem e o envolveu de sentimentos, entre os quais a saudade.
Horácio abraçou-o. Disse: “Tenho ensinado o racional, deslembrado as emoções. Contudo, vejo que estas são espontâneas. Entremos para apreciarmos um bom vinho”.
O sol se preparava para se pôr quando o aluno participou sobre sua intenção de retornar à cidade. O empregado já preparava os cavalos quando seus argumentos foram prontamente recusados pelo anfitrião que expôs os perigos do tráfego pela região depois do anoitecer.
- Como nos ensinou sobre Einstein, algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário!
- Eu sei, eu sei. Vi que você está ficando melhor do que eu. Ah! Os anos passam e pareço mais velho que essas serras. Fique e faremos uma fogueira, até porque a lua está cheia e deve aparecer mais tarde. Ao amanhecer os peixes são melhores de pescar.
O aluno pesou tudo e o resultado era mesmo a solidão. Viver ali, sozinho, era um grande sacrifício. Pensou: “Ninguém se torna mestre sem sacrifícios”.
Pelo amanhecer o aluno dispensou a pescaria. “Preciso ir. Tenho muito que cavalgar”.
Ao entender-lhe a mão, o mestre perguntou:
- Veio mesmo só pela saudade?
- Não. Também sentia saudade da casa, do lago, dessa mata. Mas essas coisas não animam nem trazem um sopro de esperança, despertam nem soerguem o espírito tanto quanto o senhor; nem põem o corpo em alerta, os braços em guarda, os pulsos firmes e prontos para o combate quanto seus ensinamentos. Saudades apenas sentirei se um dia o mestre morrer primeiro.
- Ora, dane-se. Como disse, você está mesmo ficando melhor do que eu!
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
A REVELAÇÃO
Célio Furtado
O discípulo Agostinho procurou o mestre para ouvi-lo sobre a vida. O mestre disse: “Suba uma serra e muito aprenderá. Quando se preparar para descer terá uma revelação.”
Ele obedeceu. Chegando ao cume percebeu que ela parecia mais elevada vista de baixo. De onde agora estava podia avistar o mundo em derredor, mas a beleza da serra desaparecera. “Deve ser porque tudo necessita de distância para ser avaliado corretamente.”
Diante dos olhos Agostinho viu inúmeras serras, umas maiores, outras menores, mas todas apresentando uma coisa em comum: a idéia de serra. Disse para si: “Assemelham-se a pessoas: umas maiores, outras menores, mas na essência todas são pessoas.”
Disposto em curvas, à maneira de ondas, o cenário lembrava o espírito. Ora alto, ora baixo, largo, estreito, como se pretendesse fugir do enfadonho e da repetição.
Ele percebeu que as serras também não duravam para sempre, pois uma e outra haviam se resumido a pedaços, restos, meros rochedos despidos do seu manto virginal. Serras ontem, hoje simples esculturas habilmente trabalhadas pela constância dos ventos. Foi quando entendeu que até as serras morrem; que nada além de Deus era permanente. “Tudo mais é inconstante e temporal”.
Agostinho viu os pássaros voando através do pó invisível das serras levado pelos ventos. Se tivesse asas como os pássaros iria conhecer outros cumes, saber se eram iguais àquele.
O desejo cresceu, ficou do tamanho da serra. Como queria sair dali, alcançar outro cume, ver a serra de longe! Pensou: “De longe ela é bonita, é turquesa; de muito longe é mais bonita ainda, é azul cobalto”.
Como as serras se pareciam com pessoas! Porque pessoas são assim: Quando estão muito perto se tornam vulneráveis, enchem-se de vícios e imperfeições. De longe são bonitas e perfeitas, de perto logo revelam defeitos e se tornam censuráveis e viciosas.
Por que aquela vontade assim, tão de repente? Por quê? Ali não estava bom? Não. Nunca parecemos satisfeitos onde estamos nem em face ao que possuímos. Com o tempo o conhecido se torna habitual e provoca enfado e canseira. Apesar de o desconhecido parecer distinto e agradável basta que se faça manifesto para com o tempo perder o encanto e a impressão de diferente.
Foi nesse momento que teve a revelação: “O homem deve cuidar e servir-se das coisas criadas por Deus, mas não imaginá-las como suas, pois é a idéia de posse que dá a sensação de fastio e saciedade.”
O discípulo Agostinho procurou o mestre para ouvi-lo sobre a vida. O mestre disse: “Suba uma serra e muito aprenderá. Quando se preparar para descer terá uma revelação.”
Ele obedeceu. Chegando ao cume percebeu que ela parecia mais elevada vista de baixo. De onde agora estava podia avistar o mundo em derredor, mas a beleza da serra desaparecera. “Deve ser porque tudo necessita de distância para ser avaliado corretamente.”
Diante dos olhos Agostinho viu inúmeras serras, umas maiores, outras menores, mas todas apresentando uma coisa em comum: a idéia de serra. Disse para si: “Assemelham-se a pessoas: umas maiores, outras menores, mas na essência todas são pessoas.”
Disposto em curvas, à maneira de ondas, o cenário lembrava o espírito. Ora alto, ora baixo, largo, estreito, como se pretendesse fugir do enfadonho e da repetição.
Ele percebeu que as serras também não duravam para sempre, pois uma e outra haviam se resumido a pedaços, restos, meros rochedos despidos do seu manto virginal. Serras ontem, hoje simples esculturas habilmente trabalhadas pela constância dos ventos. Foi quando entendeu que até as serras morrem; que nada além de Deus era permanente. “Tudo mais é inconstante e temporal”.
Agostinho viu os pássaros voando através do pó invisível das serras levado pelos ventos. Se tivesse asas como os pássaros iria conhecer outros cumes, saber se eram iguais àquele.
O desejo cresceu, ficou do tamanho da serra. Como queria sair dali, alcançar outro cume, ver a serra de longe! Pensou: “De longe ela é bonita, é turquesa; de muito longe é mais bonita ainda, é azul cobalto”.
Como as serras se pareciam com pessoas! Porque pessoas são assim: Quando estão muito perto se tornam vulneráveis, enchem-se de vícios e imperfeições. De longe são bonitas e perfeitas, de perto logo revelam defeitos e se tornam censuráveis e viciosas.
Por que aquela vontade assim, tão de repente? Por quê? Ali não estava bom? Não. Nunca parecemos satisfeitos onde estamos nem em face ao que possuímos. Com o tempo o conhecido se torna habitual e provoca enfado e canseira. Apesar de o desconhecido parecer distinto e agradável basta que se faça manifesto para com o tempo perder o encanto e a impressão de diferente.
Foi nesse momento que teve a revelação: “O homem deve cuidar e servir-se das coisas criadas por Deus, mas não imaginá-las como suas, pois é a idéia de posse que dá a sensação de fastio e saciedade.”
AS RUAS NÃO SÃO PÚBLICAS
Célio Furtado
Sempre que voltava da faculdade encontrava meu vizinho muito empolgado com a calçada: varria, lavava, esfregava, gastando água e tempo, excessivamente. Até a manhã seguinte a árvore do seu jardim iria acumular na calçada folhas e flores, enquanto carros e transeuntes, com a ajuda do vento, acabariam de sujá-la.
Voltava da faculdade e lá estava o homem com vassoura e mangueira em punho num exercício quase interminável.’’ Pobres folhas, como são efêmeras! ‘’ , eu pensava.
Os anos se passaram, eu terminei o curso e veio o tempo de me mudar de rua, e depois de cidade. Quando vou à Campina sempre passo nessa rua, porque as ruas não são públicas, e sim das pessoas que nelas vivem ou viveram. Isso mesmo, se passo por um lugar em que nada me aconteceu de especial, eu apenas atravesso. A rua é mais importante que uma cidade inteira, porque guarda cumplicidade... é a mercearia de seu fulano, a calçada irregular, um muro empenado, as castanholas que ainda escondem um pedaço de janela... Lembro que passava na calçada só para ver se a janela estava aberta... Ah! se estivesse, não estava, mas dava para sentir o perfume que vinha do outro lado... O coração batia forte.
Mas não são apenas ruas, as casas também nos envolvem, e estas marcam mais, tanto que chegam a deixar cicatrizes. Nelas as emoções são mais facilmente acomodadas e, por isso, quando são ruins, sufocam. Aliás, temos uma tendência a lembrar das sensações negativas... do amor não correspondido, de situações de angústia ou de uma doença grave. Será que não nos ocorreu nada de bom? Uma breve reflexão certamente nos trará boas recordações.
Refletindo bem, percebemos que as boas lembranças marcam menos porque geralmente o que causa contentamento não é consumido, e sim devorado.
Eu, por exemplo, não perdôo a quem come sem degustar... É coisa de animal; muito primitivo. Pessoas assim deveriam saber que o paladar se situa na boca, e não no estômago.
O vinho, por melhor que se apresente será apenas vinho, caso não seja bem apreciado. Igualmente são os momentos felizes, se não forem bem vividos, serão meros momentos, de vida breve e efêmeros, assim como aquelas flores e folhas da calçada do meu vizinho.
Sempre que voltava da faculdade encontrava meu vizinho muito empolgado com a calçada: varria, lavava, esfregava, gastando água e tempo, excessivamente. Até a manhã seguinte a árvore do seu jardim iria acumular na calçada folhas e flores, enquanto carros e transeuntes, com a ajuda do vento, acabariam de sujá-la.
Voltava da faculdade e lá estava o homem com vassoura e mangueira em punho num exercício quase interminável.’’ Pobres folhas, como são efêmeras! ‘’ , eu pensava.
Os anos se passaram, eu terminei o curso e veio o tempo de me mudar de rua, e depois de cidade. Quando vou à Campina sempre passo nessa rua, porque as ruas não são públicas, e sim das pessoas que nelas vivem ou viveram. Isso mesmo, se passo por um lugar em que nada me aconteceu de especial, eu apenas atravesso. A rua é mais importante que uma cidade inteira, porque guarda cumplicidade... é a mercearia de seu fulano, a calçada irregular, um muro empenado, as castanholas que ainda escondem um pedaço de janela... Lembro que passava na calçada só para ver se a janela estava aberta... Ah! se estivesse, não estava, mas dava para sentir o perfume que vinha do outro lado... O coração batia forte.
Mas não são apenas ruas, as casas também nos envolvem, e estas marcam mais, tanto que chegam a deixar cicatrizes. Nelas as emoções são mais facilmente acomodadas e, por isso, quando são ruins, sufocam. Aliás, temos uma tendência a lembrar das sensações negativas... do amor não correspondido, de situações de angústia ou de uma doença grave. Será que não nos ocorreu nada de bom? Uma breve reflexão certamente nos trará boas recordações.
Refletindo bem, percebemos que as boas lembranças marcam menos porque geralmente o que causa contentamento não é consumido, e sim devorado.
Eu, por exemplo, não perdôo a quem come sem degustar... É coisa de animal; muito primitivo. Pessoas assim deveriam saber que o paladar se situa na boca, e não no estômago.
O vinho, por melhor que se apresente será apenas vinho, caso não seja bem apreciado. Igualmente são os momentos felizes, se não forem bem vividos, serão meros momentos, de vida breve e efêmeros, assim como aquelas flores e folhas da calçada do meu vizinho.
MERECE O QUE SABE APRECIAR
Célio Furtado
As luzes deviam estar todas acesas porque era a noite de confraternização, um momento específico escolhido pela família para celebrar a vida e a união de todos. Uns moravam longe e demoravam a aparecer; por isso, um motivo para festejar.
Porém, naquela noite as arandelas não estavam acesas como mandava a tradição.
- Precisamos conter gastos e elas ficarão apagadas.
- Mesmo na noite da confraternização?
- Sim, mesmo nessa noite, até porque muitos nem perceberão sua luz, que só contribuirá para onerar a conta pelo fornecimento.
- E não será importante para aqueles que perceberem, mesmo que seja uma minoria?
- Se houver uma ocasião mais especial, aí, sim, consinta-se que sejam acesas.
- Se o uso de algo não é feito no momento em que se precisa, é porque não precisa, e deve ser atirado fora.
- Elas não devem ser retiradas porque um dia pode haver precisão maior... Uma visita importante, por exemplo. Por isso, devem ser poupadas.
- Haverá alguém mais importante para observar as arandelas acesas do que nós mesmos?
- Nós somos de casa, a visita não é. Desse modo, deve ser bem recebida.
- Será que não percebe quanta incoerência há em seu argumento? A maré e a fauna sabem quando a lua está cheia, e por saberem, não deixam para se manifestar após esse tempo, porque a lua vai minguar e não terá a força exibida nas noites anteriores.
“Então, por que somos tão diferentes das coisas simples da natureza? Parece que o homem ouve apenas o clamor da avidez da sua alma pequena alimentada pela fome da ambição?“
“Reserva o melhor vinho para o melhor hóspede, nunca tão especial quanto a bebida guardada na semi-escuridão da adega. Então, os anos se passam, o vinho envelhece apurando as suas qualidades com o tempo; torna-se cada vez mais raro à espera de um visitante que tenha o tamanho do seu merecimento.”
“Porém, como o vinho o dono sofre a influência dos anos e também envelhece, e vez que a alma não guarda as mesmas propriedades da bebida, depura com o gosto azedo da sua ambição e passa a amargar-lhe a malícia decantada.”
“O gosto ruim do desgosto um dia o fere mortalmente; contudo, o vinho permanece puro e intacto, e cheio de desejo de se ver degustado por um bom apreciador.”
“Por isso, o que merece é o que sabe apreciar, o que lhe reconhece a essência, não o que bebe para impressionar os que não puderam sentar à mesa para o banquete.”
- Espere! Para onde você vai?
- Para minha casa, lá eu acendo arandelas, mesmo nas noites mais comuns.
As luzes deviam estar todas acesas porque era a noite de confraternização, um momento específico escolhido pela família para celebrar a vida e a união de todos. Uns moravam longe e demoravam a aparecer; por isso, um motivo para festejar.
Porém, naquela noite as arandelas não estavam acesas como mandava a tradição.
- Precisamos conter gastos e elas ficarão apagadas.
- Mesmo na noite da confraternização?
- Sim, mesmo nessa noite, até porque muitos nem perceberão sua luz, que só contribuirá para onerar a conta pelo fornecimento.
- E não será importante para aqueles que perceberem, mesmo que seja uma minoria?
- Se houver uma ocasião mais especial, aí, sim, consinta-se que sejam acesas.
- Se o uso de algo não é feito no momento em que se precisa, é porque não precisa, e deve ser atirado fora.
- Elas não devem ser retiradas porque um dia pode haver precisão maior... Uma visita importante, por exemplo. Por isso, devem ser poupadas.
- Haverá alguém mais importante para observar as arandelas acesas do que nós mesmos?
- Nós somos de casa, a visita não é. Desse modo, deve ser bem recebida.
- Será que não percebe quanta incoerência há em seu argumento? A maré e a fauna sabem quando a lua está cheia, e por saberem, não deixam para se manifestar após esse tempo, porque a lua vai minguar e não terá a força exibida nas noites anteriores.
“Então, por que somos tão diferentes das coisas simples da natureza? Parece que o homem ouve apenas o clamor da avidez da sua alma pequena alimentada pela fome da ambição?“
“Reserva o melhor vinho para o melhor hóspede, nunca tão especial quanto a bebida guardada na semi-escuridão da adega. Então, os anos se passam, o vinho envelhece apurando as suas qualidades com o tempo; torna-se cada vez mais raro à espera de um visitante que tenha o tamanho do seu merecimento.”
“Porém, como o vinho o dono sofre a influência dos anos e também envelhece, e vez que a alma não guarda as mesmas propriedades da bebida, depura com o gosto azedo da sua ambição e passa a amargar-lhe a malícia decantada.”
“O gosto ruim do desgosto um dia o fere mortalmente; contudo, o vinho permanece puro e intacto, e cheio de desejo de se ver degustado por um bom apreciador.”
“Por isso, o que merece é o que sabe apreciar, o que lhe reconhece a essência, não o que bebe para impressionar os que não puderam sentar à mesa para o banquete.”
- Espere! Para onde você vai?
- Para minha casa, lá eu acendo arandelas, mesmo nas noites mais comuns.
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