Célio Furtado
O discípulo Agostinho procurou o mestre para ouvi-lo sobre a vida. O mestre disse: “Suba uma serra e muito aprenderá. Quando se preparar para descer terá uma revelação.”
Ele obedeceu. Chegando ao cume percebeu que ela parecia mais elevada vista de baixo. De onde agora estava podia avistar o mundo em derredor, mas a beleza da serra desaparecera. “Deve ser porque tudo necessita de distância para ser avaliado corretamente.”
Diante dos olhos Agostinho viu inúmeras serras, umas maiores, outras menores, mas todas apresentando uma coisa em comum: a idéia de serra. Disse para si: “Assemelham-se a pessoas: umas maiores, outras menores, mas na essência todas são pessoas.”
Disposto em curvas, à maneira de ondas, o cenário lembrava o espírito. Ora alto, ora baixo, largo, estreito, como se pretendesse fugir do enfadonho e da repetição.
Ele percebeu que as serras também não duravam para sempre, pois uma e outra haviam se resumido a pedaços, restos, meros rochedos despidos do seu manto virginal. Serras ontem, hoje simples esculturas habilmente trabalhadas pela constância dos ventos. Foi quando entendeu que até as serras morrem; que nada além de Deus era permanente. “Tudo mais é inconstante e temporal”.
Agostinho viu os pássaros voando através do pó invisível das serras levado pelos ventos. Se tivesse asas como os pássaros iria conhecer outros cumes, saber se eram iguais àquele.
O desejo cresceu, ficou do tamanho da serra. Como queria sair dali, alcançar outro cume, ver a serra de longe! Pensou: “De longe ela é bonita, é turquesa; de muito longe é mais bonita ainda, é azul cobalto”.
Como as serras se pareciam com pessoas! Porque pessoas são assim: Quando estão muito perto se tornam vulneráveis, enchem-se de vícios e imperfeições. De longe são bonitas e perfeitas, de perto logo revelam defeitos e se tornam censuráveis e viciosas.
Por que aquela vontade assim, tão de repente? Por quê? Ali não estava bom? Não. Nunca parecemos satisfeitos onde estamos nem em face ao que possuímos. Com o tempo o conhecido se torna habitual e provoca enfado e canseira. Apesar de o desconhecido parecer distinto e agradável basta que se faça manifesto para com o tempo perder o encanto e a impressão de diferente.
Foi nesse momento que teve a revelação: “O homem deve cuidar e servir-se das coisas criadas por Deus, mas não imaginá-las como suas, pois é a idéia de posse que dá a sensação de fastio e saciedade.”
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
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