terça-feira, 15 de janeiro de 2008

AS RUAS NÃO SÃO PÚBLICAS

Célio Furtado

Sempre que voltava da faculdade encontrava meu vizinho muito empolgado com a calçada: varria, lavava, esfregava, gastando água e tempo, excessivamente. Até a manhã seguinte a árvore do seu jardim iria acumular na calçada folhas e flores, enquanto carros e transeuntes, com a ajuda do vento, acabariam de sujá-la.
Voltava da faculdade e lá estava o homem com vassoura e mangueira em punho num exercício quase interminável.’’ Pobres folhas, como são efêmeras! ‘’ , eu pensava.
Os anos se passaram, eu terminei o curso e veio o tempo de me mudar de rua, e depois de cidade. Quando vou à Campina sempre passo nessa rua, porque as ruas não são públicas, e sim das pessoas que nelas vivem ou viveram. Isso mesmo, se passo por um lugar em que nada me aconteceu de especial, eu apenas atravesso. A rua é mais importante que uma cidade inteira, porque guarda cumplicidade... é a mercearia de seu fulano, a calçada irregular, um muro empenado, as castanholas que ainda escondem um pedaço de janela... Lembro que passava na calçada só para ver se a janela estava aberta... Ah! se estivesse, não estava, mas dava para sentir o perfume que vinha do outro lado... O coração batia forte.
Mas não são apenas ruas, as casas também nos envolvem, e estas marcam mais, tanto que chegam a deixar cicatrizes. Nelas as emoções são mais facilmente acomodadas e, por isso, quando são ruins, sufocam. Aliás, temos uma tendência a lembrar das sensações negativas... do amor não correspondido, de situações de angústia ou de uma doença grave. Será que não nos ocorreu nada de bom? Uma breve reflexão certamente nos trará boas recordações.
Refletindo bem, percebemos que as boas lembranças marcam menos porque geralmente o que causa contentamento não é consumido, e sim devorado.
Eu, por exemplo, não perdôo a quem come sem degustar... É coisa de animal; muito primitivo. Pessoas assim deveriam saber que o paladar se situa na boca, e não no estômago.
O vinho, por melhor que se apresente será apenas vinho, caso não seja bem apreciado. Igualmente são os momentos felizes, se não forem bem vividos, serão meros momentos, de vida breve e efêmeros, assim como aquelas flores e folhas da calçada do meu vizinho.

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