terça-feira, 15 de janeiro de 2008

MERECE O QUE SABE APRECIAR

Célio Furtado

As luzes deviam estar todas acesas porque era a noite de confraternização, um momento específico escolhido pela família para celebrar a vida e a união de todos. Uns moravam longe e demoravam a aparecer; por isso, um motivo para festejar.
Porém, naquela noite as arandelas não estavam acesas como mandava a tradição.
- Precisamos conter gastos e elas ficarão apagadas.
- Mesmo na noite da confraternização?
- Sim, mesmo nessa noite, até porque muitos nem perceberão sua luz, que só contribuirá para onerar a conta pelo fornecimento.
- E não será importante para aqueles que perceberem, mesmo que seja uma minoria?
- Se houver uma ocasião mais especial, aí, sim, consinta-se que sejam acesas.
- Se o uso de algo não é feito no momento em que se precisa, é porque não precisa, e deve ser atirado fora.
- Elas não devem ser retiradas porque um dia pode haver precisão maior... Uma visita importante, por exemplo. Por isso, devem ser poupadas.
- Haverá alguém mais importante para observar as arandelas acesas do que nós mesmos?
- Nós somos de casa, a visita não é. Desse modo, deve ser bem recebida.
- Será que não percebe quanta incoerência há em seu argumento? A maré e a fauna sabem quando a lua está cheia, e por saberem, não deixam para se manifestar após esse tempo, porque a lua vai minguar e não terá a força exibida nas noites anteriores.
“Então, por que somos tão diferentes das coisas simples da natureza? Parece que o homem ouve apenas o clamor da avidez da sua alma pequena alimentada pela fome da ambição?“
“Reserva o melhor vinho para o melhor hóspede, nunca tão especial quanto a bebida guardada na semi-escuridão da adega. Então, os anos se passam, o vinho envelhece apurando as suas qualidades com o tempo; torna-se cada vez mais raro à espera de um visitante que tenha o tamanho do seu merecimento.”
“Porém, como o vinho o dono sofre a influência dos anos e também envelhece, e vez que a alma não guarda as mesmas propriedades da bebida, depura com o gosto azedo da sua ambição e passa a amargar-lhe a malícia decantada.”
“O gosto ruim do desgosto um dia o fere mortalmente; contudo, o vinho permanece puro e intacto, e cheio de desejo de se ver degustado por um bom apreciador.”
“Por isso, o que merece é o que sabe apreciar, o que lhe reconhece a essência, não o que bebe para impressionar os que não puderam sentar à mesa para o banquete.”
- Espere! Para onde você vai?
- Para minha casa, lá eu acendo arandelas, mesmo nas noites mais comuns.

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