terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O HOMEM SEM TEMPO

Célio Furtado

Um homem viajava por uma estrada esquisita quando o carro estancou. Impaciente e refém dos inúmeros compromissos, decidiu caminhar. “Na próxima cidade arranjaria um mecânico.”
Seguiu, até que se deparou com um riacho muito cheio. As águas representavam perigo, impossibilitando a passagem. Aquilo quase o levou ao desespero. Viu um rapaz à sombra de uma árvore. Perguntou:
- Você está aqui há quanto tempo?
- Não faz muito, acho que uma hora.
- Uma hora! Mas isso é muito tempo para alguém olhar a mesma coisa, você não acha?
- A água de um riacho nunca é a mesma – disse o rapaz.
O homem viu sentido no pensamento do outro. Contudo, insistiu:
- Mas o riacho sempre é o mesmo.
O rapaz respondeu:
- Só Deus é permanente, as outras coisas são inconstantes. O riacho se formou com o tempo, está cheio porque choveu forte na sua nascente.
O homem se mostrou irritado com aquelas respostas. Veio o silêncio. Refletiu, viu a correnteza, a vegetação, o som produzido pelas águas. Tinha pressa, mas não podia arriscar. Perguntou:
- Quando o riacho fica assim, como se alcança a outra margem?
- O jeito é esperar. A outra opção é enfrentar a correnteza e depois morrer.
- E não há um atalho?
- Não, não há – disse o rapaz.
- E durante o inverno, espera-se três meses?
- Não chove três meses sem parar.
- E quando acontece de chover o dia inteiro, as pessoas esperam o dia inteiro?
O jovem, com os olhos fixos na correnteza, respondeu:
- Dizem que o melhor momento de decidir é antes de começar, por isso quando vai chover forte, ou elas passam antes, ou simplesmente adiam seus compromissos, até as águas baixarem.
- Mas você não acha que uma ponte resolveria o problema? – Perguntou o homem.
- Não existe ponte. A ponte só serve se existir - disse o outro.
Permaneceram em silêncio por mais alguns minutos. O visitante perguntou:
- Pelo jeito, você é daqui. Sabendo que ia chover tanto, por que não passou antes?
- Porque eu não tinha nada para fazer lá. Vim pegar lenha e fiquei para ver a cheia.
- Mas por uma hora?
- Não, por duas horas; uma hora faz que você chegou aqui.

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