Célio Furtado
Ao se despedir do pai para uma viagem de três meses o filho disse:
- Voltarei no início do inverno para construirmos as coisas que sonhamos fazer aqui.
- Meu filho – respondeu o pai - nossos sonhos são construídos dia-a-dia, através do tempo. Construa-o agora, não espere por mim.
E antes do carro partir, concluiu:
- Lembre-se: não somos dono do tempo.
Deixou o automóvel se perder de vista, e entrou.
Porém, veio o início do inverno e o filho não voltou porque lhe foram oferecidas novas e melhores oportunidades de trabalho. Escreveu ao pai contando o que se passara, e prometeu voltar quando o inverno terminasse.
Mas o período chuvoso passou, e novamente o rapaz não veio.
Contudo, quando o Natal se aproximou o pai, esperançoso, disse: ´´ Ele voltará, pois nessa data nós jamais estivemos separados.´´
Infelizmente, junto a um cartão de boas festas chegou apenas um pedido de desculpas pela ausência e a promessa de que, em breve, retornaria. Disse que surgira uma chance de viajar para o exterior e, como se tratava de uma oportunidade única, iria aproveitá-la.
Veio um novo ano, um novo início de inverno, o fim desta estação, outra desculpa, porém não a chegada do filho. Passaram-se três anos.
Um dia o rapaz sonhou que estava numa praia, onde construía castelos e figuras humanas na areia, destruídos depois pelas ondas. Das esculturas, sobrava apenas o rosto do seu pai.
Interpretou o sonho como um presságio. Decidiu voltar. Cresceu na alma a expectativa do reencontro. Prometera demorar só três meses, passaram-se três anos.
´´Mas meu pai se alegrará, trago dinheiro na minha bagagem ´´ – pensou. Chegou três dias mais tarde.
A criada o recebeu em prantos: ´´ - Sepultamos seu pai ontem. Deixou isso para você. Leia. ´´ - Disse, entregando-lhe uma correspondência.
´´ Meu filho, não somos dono do tempo. As edificações são como castelos de areia, fazemos agora, as ondas desfazem mais tarde... Não sofra e nem se culpe. Embora as ondas varram nossos sonhos e desmanchem nossos castelos, não apagarão o amor, as lembranças, as saudades. Estes, sim, são eternos, eternos como o próprio tempo.´´
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
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