Célio Furtado
Uma mulher rezava ajoelhada diante do alto quando viu o padre. Voltando-se para ele, disse:
“Ontem cometi um erro, padre; anteontem, outro. Somados aos do início da semana e a outros infortúnios ocorridos nesse período, também por minha culpa... Penso que estou sendo castigada.
“Quem lhe castiga é a culpa, não os erros. Ela quando vista com bom juízo eleva o conhecimento, pois deixa o orgulho vulnerável e desarma o erro, mas se entendida como um flagelo alimenta o medo e fortalece o desacerto.”
A mulher disse, enxugando as lágrimas:
“Preocupo-me muito com meu filho, eu só tenho um, padre. Ele é tudo para mim.”
“Dê graças por ele existir. Por isso, em vez de se preocupar, ocupe-se com ele. Abrace-o em vez de apertá-lo, pode-o em vez de ceifá-lo. Todos nós temos inimigos invisíveis que precisam ser percebidos e bem interpretados, não necessariamente combatidos. Nada mais aflige a alma que o desejo insaciável de atacar. Aquele que toma a arma e a aponta para o suposto inimigo além de eleger o inimigo, incita-o. Celebre o bem, esqueça o mal.”
Ela rebateu: “Mas como, se tudo que faço parece dar errado e me causa sofrimento e dor?”
O padre contestou: ”Não se deve torturar pelo fato de ter incorrido no erro. Eles foram tecidos pelas mesmas mãos que trabalharam o sofrimento. Será que não percebe quanto de sabedoria existe na dor?”
“Tome como exemplo a beleza da flor. Veja o ipê, quando ainda broto se sabe que um dia poderá florir e se tornar belo e majestoso, mas precisará de sorte e paciência para atingir a fase adulta. E mesmo nessa fase, esperará a primavera.”
“Se o colorido da natureza fosse constante ninguém esperaria pela primavera para ver o ipê florido, talvez nem sequer o admirasse, porque o que é constante é cansativo e ordinário.”
O padre continuou: “Qual o espírito de graça da amizade sem a ausência do amigo? Quando este ressurge o abraço se torna mais caloroso e há muito mais fatos para lhe contar. A ausência permite medir o tamanho da sua falta e proporciona tempo vago para podermos cuidar de nós mesmos, de nos vermos como amigo de nós mesmos.”
“Volte para casa e viva a vida, não os medos. Ame o seu filho, ensine-o a enxergar o passado, assim não repetirá os erros no presente. E lembre-se: - A sorte está dentro do coração, a felicidade também. E quando voltar à igreja, ajoelhe-se para agradecer. Deus gosta de pessoas assim.”
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
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