quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A SAUDADE

Célio Furtado

No período das férias um dos alunos do mestre Horácio decidiu lhe fazer uma visita. Então, cavalgou duas léguas por estrada precária e caminhos vicinais. Ao avistá-lo, o mestre disse:
- Jamais me alegrei tanto em vê-lo como hoje.
- Estive ao seu lado por todo o ano passado, e não despertei sua alegria tanto como hoje. Por quê?
- Das outras vezes procurava por meus conhecimentos, agora veio porque sentiu saudades.
- Diz que ninguém enfrenta essas terras durante o recesso só para lhe ver.
- Um professor sempre perde a importância nessa época.
- Aconselho-o a crer que seus alunos não o procuram nesse tempo porque corre o mundo para praticarem o que lhes ensinou.
- E por que não fez o mesmo?
- Porque Deus criou o homem e o envolveu de sentimentos, entre os quais a saudade.
Horácio abraçou-o. Disse: “Tenho ensinado o racional, deslembrado as emoções. Contudo, vejo que estas são espontâneas. Entremos para apreciarmos um bom vinho”.
O sol se preparava para se pôr quando o aluno participou sobre sua intenção de retornar à cidade. O empregado já preparava os cavalos quando seus argumentos foram prontamente recusados pelo anfitrião que expôs os perigos do tráfego pela região depois do anoitecer.
- Como nos ensinou sobre Einstein, algo só é impossível até que alguém duvide e acabe provando o contrário!
- Eu sei, eu sei. Vi que você está ficando melhor do que eu. Ah! Os anos passam e pareço mais velho que essas serras. Fique e faremos uma fogueira, até porque a lua está cheia e deve aparecer mais tarde. Ao amanhecer os peixes são melhores de pescar.
O aluno pesou tudo e o resultado era mesmo a solidão. Viver ali, sozinho, era um grande sacrifício. Pensou: “Ninguém se torna mestre sem sacrifícios”.
Pelo amanhecer o aluno dispensou a pescaria. “Preciso ir. Tenho muito que cavalgar”.
Ao entender-lhe a mão, o mestre perguntou:
- Veio mesmo só pela saudade?
- Não. Também sentia saudade da casa, do lago, dessa mata. Mas essas coisas não animam nem trazem um sopro de esperança, despertam nem soerguem o espírito tanto quanto o senhor; nem põem o corpo em alerta, os braços em guarda, os pulsos firmes e prontos para o combate quanto seus ensinamentos. Saudades apenas sentirei se um dia o mestre morrer primeiro.
- Ora, dane-se. Como disse, você está mesmo ficando melhor do que eu!

Nenhum comentário: