terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O ENCONTRO

Célio Furtado

Uma moça passava férias com a família numa praia desabitada. Num final de tarde saiu sozinha para caminhar. Andou uma hora pela areia molhada, encontrou uma senhora.
- Olá. Veio contemplar o mar?
Uma voz doce e serena soou como uma canção:
- Vim perceber as coisas de Deus.
- E o que percebe senhora?
- Que Deus continua do tamanho de Deus e que o homem continua do tamanho do homem.
A moça se sentou ao lado, e disse:
- Veraneio aqui todos os anos, desde pequena. Caminho vendo o que Deus criou. Sinto profundo bem-estar porque eu o encontro em cada onda, em cada grão de areia; até no vapor da água sinto sua presença. Mora aqui perto?
- Eu não sou deste lugar, mas vim porque precisavam do meu filho.
- Ele é médico, político, padre?
- Não é padre, apesar de ter vivido para servir a Deus; não é médico, mesmo tendo curado pessoas; também não é político, embora tenha articulado multidões e feito tremerem governantes e instituições.
- Então deve ser alguém muito importante.
- Meu filho é único.
- Ele partiu?
- Foi para perto do pai.
- E o que a senhora ainda faz por aqui?
- Cumpro uma missão, como cumpriu a dele.
- É muita renúncia estar distante de um filho para se doar a essa gente, que não se doa a ninguém. Não acha?
- Não se vence o contendor semeando ódio, mas amor. O Senhor nos fez para ele, e sei que o coração do homem continuará inquieto enquanto não descansar nele. Por isso, estou aqui.
- Nesse lugar, senhora, as pessoas não costumam dar muita importância a essas coisas. Elas são medíocres e materialistas e, por isso, desconhecem sentimentos como doação e renúncia.
- A doação é um gesto do amor infinito de Deus para com seus filhos, apesar do mundo continuar intolerante e não compreender suas atitudes e bondade.
- Às vezes sou pessimista, e acho que será assim até esse mar secar.
Num tom afetuoso, porém firme, a senhora disse:
- Não pronuncie palavra para professar os desígnios de Deus, minha filha. O que sabemos sobre ele é um grão de areia, mas o que ignoramos é toda esta areia.
Enrubescida, a moça silenciou. Desculpou-se; disse:
- São seis horas, pois já escurece. Preciso voltar.
Despediu-se. Não sabia por que, mas sentia a alma leve como a espuma das ondas.
“Como é afetiva essa senhora”, pensou. Voltou-se num olhar, acenou-lhe. A senhora sorriu, amavelmente.
Alguns passos, outro pensamento, um estalo: “Ela lembra alguém...”. Um novo olhar. Agora havia apenas uma luz branca, branda, suave, adiando o anoitecer, elevando-se em direção à primeira estrela.

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