Célio Furtado
Helena estava indecisa. Festa para quê? Saiu do banho; a imagem refletida no espelho revelava um corpo sem o vigor de anos atrás. Do quarto vinha uma música que parecia imprimir seu passado. Abba!
Anos setenta, oitenta, os sonhos de adolescente, uma época que desejava ter congelado na sua vida. Agora se fazia distante, embaçada na memória como o espelho que lhe escondia rugas e gordurinhas localizadas. ‘’ Estou velha! ‘’ As palavras se desprenderam feito uma sentença de morte.
A expressão corroborou a incerteza, fortaleceu a falta de alegria. Ficaria em casa vendo tv, aliás, festa se resumia a aturar bêbados e a uma noite de sono sacrificado. Melhor se aquietar.
Helena tivera alguns envolvimentos, uma ou outra paixão, mas nada que justificasse uma relação mais séria. Podia ter casado, construído uma história doméstica, ter se doado a marido e filhos. A vida e as circunstâncias disseram não, erigiram dúvidas no seu peito. Às vezes se culpava por não ter sido imperativa, vivendo a experiência amorosa e ter deixado o amor chegar e crescer qual o sol a cada manhã. ‘’ Ninguém ama de verdade, o amor é algo que se cria com doação mútua. ‘’ Por que pensava nessas coisas agora, que diferença iam fazer?
Seus pensamentos foram quebrados com o toque do celular. ‘’ Deve ser alguém para me arrancar de casa ‘’ pensou. A chamada insistiu até cair na caixa postal. A música em MP3, de repente, mudou de pasta deixando para trás as lembranças e o passado. O som de Gonzaguinha reverberou no espírito de Helena como uma fonte de luz, iluminando-lhe o presente, incitando-a. Talvez fosse à festa, afinal estava sem sono e a programação da tv no sábado andava mesmo uma droga.
A canção na verdade era um poema, uma obra de arte deixada para a glorificação futura: ‘’ Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar, e cantar, e cantar...’’.
Helena parecia reconciliada com a vida. Como todos, era um eterno aprendiz. Nada de lamentações, o barco fui útil enquanto atravessava o rio, agora era um peso e precisava tirá-lo das costas. A felicidade lhe fazia cobranças.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
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